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História da Igreja

A primitiva ermida construída por pescadores possivelmente antes de 1592, na então Praia de Piaçava, próxima do núcleo inicial da cidade, já não existe mais. De acordo com o site do Arquivo Noronha Santos do Iphan, com a transferência do núcleo urbano para o Morro do Castelo em 1565, a devoção à Santa Luzia passou a se realizar na ermida de Nossa Senhora dos Navegantes, ereta por pescadores junto ao sopé do Morro do Castelo. O culto à Santa Luzia teria sido, dentre outras razões, incentivados pelos frades franciscanos que se instalaram na primitiva capela da praia. Assim infere-se que a primitiva capela era dedicada a Nossa Senhora dos Navegantes, e que ao ser reconstruída pela Irmandade de Santa Luzia mudou de padroeira.

Após a vitória dos portugueses e indígenas contra a invasão dos franceses na Baía de Guanabara, a cidade foi fundada no topo do Morro Cara de Cão, na Urca, em 1565. Dois anos depois, em 1567, variados motivos levaram os portugueses a transferir esse primeiro povoamento para outro morro que, após a construção de uma fortaleza, toda cercada e aparelhada, ficou conhecido como Morro do Castelo.

Assim como a inexistente ermida de Santa Luzia outros templos foram sendo edificados em áreas alagadas que estavam sendo ocupadas pela população necessitada de novos espaços. Na medida em que ia se ocupando a restinga e a várzea, o antigo núcleo construído por Mem de Sá no Morro do Castelo entrava em processo de decadência. As capelas da várzea, de acesso mais cômodo, foram, para Nireu Cavalcanti (2004), progressivamente atraindo os fiéis.

Em 28 de fevereiro de 1592 o Governador da Capitania do Rio de Janeiro, Salvador de Sá, doa o pequeno templo aos frades franciscanos, recém-chegados na cidade. Para Cavalcanti tal doação deveu-se ao fato de a ermida já se encontrar abandonada a essa época, passando a fazer parte dos bens da Coroa, o que possibilitou a transmissão para os franciscanos. De acordo com Augusto Maurício (1946) os franciscanos, vindos da Bahia, estabeleceram-se na ermida com o prévio consentimento da respectiva confraria já existente naquela longínqua época.

Nela ficaram por aproximadamente 15 anos até sua definitiva transferência para o Morro de Santo Antônio, em virtude de ali terem recebido uma nova propriedade para a construção de seu convento. Para Paulo Berger (1965) o Convento dos franciscanos foi estabelecido em 22 de outubro de 1606, na ermida de Santa Luzia e transferido, em 1607, para o prédio da Irmandade da Misericórdia, na mesma praia de Santa Luzia. Em seguida, foi transferido para a ermida da Ajuda, no campo da Ajuda até ser definitivamente estabelecido em 1608 para o Morro do Carmo, depois chamado de Santo Antônio.

Com o passar dos anos a ermida de Santa Luzia já se encontrava bastante deteriorada e a Irmandade da Gloriosa Virgem Mártir de Santa Luzia resolveu reerguê-la em meados do século XVIII. Em terreno de dez braças em quadra (22,00 m cada lado), doado em 31 de dezembro de 1751 pelo casal João Pereira Cabral e Antônia da Cruz, proprietários de grande chácara na área da praia de Santa Luzia, a Irmandade constrói uma nova capela. Não o fizeram no mesmo sítio em que se achava a velha ermida, mas em terreno próximo, também a beira-mar, explica Maurício Augusto (op. cit.).

Assim, por provisão datada de 12 de janeiro de 1752 foi edificado um novo templo que contava apenas com uma "torre bastante acanhada" e a frontaria tinha só uma porta de entrada, "sem a conveniente largura" (Ibidem, ibidem.)

A pintura de Eduard Hildebrandt, abaixo, apresenta uma capela modesta, com nave única, sem a capela-mor e com apenas uma torre.


Ilustração 1: Igreja de Santa Luzia. Eduard Hildebrandt, c. 1844.

É provável que a Irmandade de Santa Luzia tenha sido criada juntamente com a construção da primitiva ermida, ou seja, antes de 1592, mantendo-a até a doação aos franciscanos. Novo impulso à devoção foi dado com a possibilidade de construção de um novo templo, maior, mais apto às atividades da Irmandade. Mesmo sendo uma irmandade de brancos, Cavalcanti (2004) afirma que era uma das mais pobres da Cidade do Rio de Janeiro se comparar as doações fixas dos diretores. Na Santa Luzia as doações totalizavam 104$000 réis, o que daria para a realização de uma festa modesta, se considerarmos que a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição dos Homens Pardos gastava em média 600$000 réis com eventos desse tipo.



Ilustração 2: Capa do Estatuto da Irmandade da Gloriosa Virgem Mártir de Santa Luzia, 1765.

Em 1756 a Irmandade de Santa Luzia redige seu Compromisso que foi encaminhado ao bispo d. Antônio do Desterro para que o aprovasse. De acordo com Cavalcanti (op. cit.), o Estatuto compreendia 14 capítulos, belamente (sic) ilustrados pelo artista e calígrafo José Saldanha da Cunha – que usou motivos da flora e fauna nativas como abacaxis, cajus, gambás, pássaros e flores variadas.

De acordo com a leitura do Compromisso, o autor acima citado explica que a entidade tinha duas diretorias: a masculina, formada de juiz, escrivão, tesoureiro, procurador e mais 12 irmãos de mesa; e a feminina, composta de uma juíza e também de 12 irmãs de mesa. Eram elas responsáveis pela administração financeira da irmandade e pela realização da festa anual da santa padroeira, no dia 13 de dezembro.

A Igreja de Santa Luzia fazia parte da Freguesia de São José, criada pelo Alvará de 10 de maio de 1753, desmembrando-se o seu território do da Candelária. Esta freguesia ocupava, segundo Cavalcanti (op. cit.), o segundo maior território urbano, abrangendo a parte mais antiga da cidade no alto do morro do Castelo – o núcleo primitivo -, e os logradouros abertos pelos primeiros moradores ao ocuparem as várzeas.

Em recenseamento de 1890 havia na Freguesia de Santa Luzia 39.627 habitantes. Dentre as diversas instituições situadas na freguesia destacam-se o Hospital da Santa Casa de Misericórdia, na Praia de Santa Luzia; a Câmara dos Deputados, no largo da Assembleia, com entrada no edifício da Cadeia Velha; a Escola de Medicina; a Biblioteca Municipal; o Conselho Municipal; o Liceu de Artes e Ofícios, funcionando no consistório da Matriz do Sacramento da antiga Sé; o Quartel Central da Brigada Policial; o Passeio Público; dentre outras. Além da Igreja Matriz de São José, havia as igrejas e capelas da Santa Casa de Misericórdia (no largo da Misericórdia); a de Nossa Senhora da Conceição (no Arsenal de Guerra); de São Sebastião (antiga Sé do Rio de Janeiro), no Morro do Castelo; a de Santo Antônio de Loiola, antigo Colégio dos jesuítas, no mesmo morro; a de Nossa Senhora da Ajuda, no Convento do mesmo nome; a de Santa Teresa, no respectivo Convento; a de Santa Luzia e a de Nossa Senhora das Dores, no Quartel da Brigada Policial. (BEGER, op. cit.:133-143).

Para Brasil Gerson (2000) essa região praieira de Santa Luzia era abandonada, apesar do limite com o bairro da Misericórdia e com o Passeio Público, construído na segunda metade do século XVIII, em função de três fatores: a força do mar que constantemente castigava a praia, a presença da forca e do cemitério dos indigentes da Misericórdia. Este último foi transferido, conforme pedido da Irmandade de Nossa Senhora da Misericórdia, para a região do Caju.

Ainda no século XVII, a força das ondas obrigou ao Governador Duarte Coelho a construir uma muralha protetora, que principiava no antigo forte de Santiago, diante da velha Santa Casa e ia morrer na Capela de Santa Luzia.

Em 1818 o desejo pessoal de D. João VI em ir a Capela de Santa Luzia para pagar uma promessa feita para que seu neto D. Sebastião se curasse de um mal dos olhos provocou mudanças na região. Até esse momento o caminho para Santa Luzia era penoso e difícil, tratando-se de um "trilho estreito que sai do Largo da Ajuda, junto ao Morro [do Castelo], e é em parte às vezes coberto pelo mar". (GERSON, op. cit.:90). Apesar dos protestos dos proprietários dos terrenos que interceptavam a realização do traçado real, aos quais o erário pagou pesadas indenizações para a construção dessa nova rua. Essa nova rua beneficiou grandemente a igreja, que assim teve acesso mais fácil, mais cômodo e mais decente. (MAURÍCIO:1946:171).

A retirada do Cemitério Público e do Matadouro, a muralha protetora da força das ondas, as melhorias urbanas através da abertura de vias mais largas, a construção do novo Hospital da Santa Casa, dentre outras coisas, contribuíram para a melhoria da área no século XIX. A própria urbanização e ocupação com chácaras das regiões do Catete, Glória e Botafogo também são fatores que ajudaram a modificar a aparência dessa região.

Acompanhando as modificações no entorno, a Capela de Santa Luzia também passa por mudanças. É em meados do século XIX que a mesma sofre uma grande reforma. As modificações ocorridas na referida capela nessa época fazem parte de um movimento percebido em inúmeras igrejas da cidade do Rio de Janeiro de adaptação dos pequenos templos a novas necessidades e usos. De um modo geral, as capelas crescem verticalmente e são acrescentados óculos, coro, claraboias, tribunas, corredores laterais etc., assim como guarda-corpos.

Essas modificações representam a mudança simbólica de capelas para igrejas, crescendo não só espacialmente mais também com a incorporação de elementos significativos de mudança de status e de mentalidade.

A Igreja de Santa Luzia passa por uma restauração em 1872 , na qual duas altas torres substituem a existente, uma porta ampla e bem trabalhada é feita (GERSON, 2004:91) e mais duas portas laterais foram abertas para a entrada no templo. Nessa mesma época na Igreja são construídos dois campanários azulejados, de acordo com Gastão Cruls (op. cit.:259). Além da construção das duas torres sineiras, foi feita a cobertura dos corredores laterais, que ampliou seu espaço interno, sendo também deste período as dependências que abrigam o consistório e Secretaria da Irmandade, existente na Igreja.

As obras de 1872 ficaram a cargo do entalhador Antônio de Pádua e Castro, assim como os trabalhos de talha, provavelmente refeitos nesse período, de acordo com Cavalcanti (op. cit.).

A imagem de Santa Luzia, que estava no seu altar-mor em 1955, foi trazida de Paris pelo Comendador Veloso. A primitiva, vinda dos velhos tempos, estava, na época de Gerson (ano da primeira edição do livro "História das Ruas do Rio" de Brasil Gerson), no consistório, como preciosa peça de museu (sic). Havia também a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira dos homens do mar, e a de São Elói, padroeiro dos ourives. A imagem ocupa, segundo Maurício, o altar à direita de quem entra no templo. A Irmandade de Santo Elói completava em 1946, 150 anos de existência. (MAURÍCIO, 1946:173). De acordo com o autor citado, a imagem de São Elói foi trazida em 1913 pela Irmandade dos Ourives para a Santa Luzia. Antes dela o altar estava com a imagem do Senhor do Bonfim. (MAURÍCIO, 1946:172)

De acordo com Augusto Maurício (1946:171) estavam situados no fundo da igreja o Consistório e a Sala dos Milagres. Nessa última havia uma famosa fonte de água cristalina onde os devotos de Santa Luzia buscavam remédio para os males dos olhos. Em 1946, data da publicação de seu livro, o autor informa que a Irmandade realizou uma reforma no intuito de dotar a fonte de melhor aparência, colocando uma "pia de mármore branco de Carrara (sic), a qual pousa sobre um anjo de asas abertas. Por trás dessa pia, cuja água é tomada de uma torneira niquelada, está colocada a imagem da Santa, e no fundo, junto à parede, vê-se uma guarnição em mármore rosa, de Portugal, encimada por uma cruz também de mármore rosa. Aos lados duas compridas caixas para o recolhimento de dádivas á Virgem. Pelas paredes dessa peça, arrumadas, vê-se um mundo de objetos os mais variados, que representam ofertas à milagrosa Santa, em retribuição a benefícios concedidos". (MAURÍCIO, 1946:172)

O autor supracitado informa, em 1946, que a festa da padroeira Santa Luzia é comemorada no dia 13 de dezembro, desde os primeiros tempos da fundação, com grande brilhantismo. "Antigamente essa festa era assinalada com estouros de foguetes, queima de fogos de artifício, bandas de música e à volta do santuário fincava-se bandeiras e galhardetes coloridos. A acorrência (sic) de devotos era enorme, entre os quais notavam-se figuras da mais alta representação social, inclusive o Almirante Tamandaré (...)". (Ibdem, ibdem).

Mesmo com alterações sucessivas, inclusive no século XX, a Igreja atual guarda muitos elementos da reforma de 1872. De acordo com Sandra Alvim (1997), a fachada se caracteriza por linhas simples e verticais. O corpo central é formado por portada única e pelas três janelas guarnecidas de cantaria do coro, sendo a portada e a janela central encimadas por sobreverga. Um frontão triangular, com medalhão e folhagens no tímpano e acrotério com cruzeiro ladeado por pequenas volutas, compõe a parte superior do frontispício. (ALVIM, 1997:212)

Nas laterais, torres sineiras com portas e óculo, balaustradas e arremates bulbosos delgados e verticais revestidos de azulejos, particularidades do século XIX, dinamizam o conjunto. A planta é de nave única, capela-mor, corredores laterais e dependências onde funcionam o consistório e a sacristia.

Mudanças significativas no entorno da Igreja de Santa Luzia também são vistas no século XX quando o Prefeito Carlos Sampaio, com a desculpa de ser um espaço proletário, repleto de velhos casarões e cortiços que não combinava com o progresso e a modernização que a cidade precisava, derruba o Morro do Castelo em 1921. O discurso de engenheiros, sanitaristas, médicos e higienistas acordava que para sanear e embelezar a então doente e colonial capital federal era necessário a demolição do seu principal inimigo: os cortiços por ela espalhados. (PAIXÃO, 2006)

Inicialmente o espaço deu lugar às construções para a comemoração do Centenário da Independência do Brasil, aliás, uma das justificativas para a destruição da colina: a necessidade de um espaço amplo no centro da cidade para abrigar a Exposição. Outra razão era de ordem mais técnica, a alegação de que o Morro prejudicava a ventilação da área central da cidade.



Ilustração 3: Destruição do Morro do Castelo. Augusto Malta, 1922.

A Igreja de Santa Luzia sobreviveu à destruição do Morro do Castelo, permanecendo ainda a beira-mar, característica que foi modificada em questões de alguns anos com os sucessivos aterros. É durante o século XX, portanto, que a igreja afasta-se definitivamente do mar, assim como toda a antiga orla será modificada.

Hoje, a impressão é de que a igreja encontra-se "perdida" entre os enormes prédios ao seu redor, abafada pelo seu tamanho e sem "posição" em função da perda do referencial do mar.



Ilustração 4: Mapas ilustrativos do Morro do Castelo. KESSEL, Carlos. Reparar na mudança da paisagem e do espaço urbano com os aterros realizados. A Igreja de Santa Luzia foi definitivamente afastada do litoral, então Praia de Santa Luzia.
Igreja Santa Luzia

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